terça-feira, 19 de dezembro de 2017

o que não nos mata nos fortalece

O que são pessoas de luta e resistência? São pessoas que com certeza já visualizaram a dor, a solidão, o medo, e por mais paradoxal que possa parecer, a cada situação foram se solidificando e fortalecendo a ponto de poucas coisas a abalarem, como por exemplo os sentimentos que lhes provoquem o riso, a alegria, que lhes façam sentir amor. Até o ódio se lhes é indiferente a ponto de mediante uma reação inesperada de ódio, ou de rejeição de alguém, resta-lhe devolver um olhar de condescendência, de compaixão somente,  pois é algo que não se paga com a mesma moeda. Ódio por ódio é morte mútua, é entrega, é desespero, destempero. As pessoas que conseguem chegar nesse estágio de crescimento, são guerreiras, sempre preparadas para o bom combate, estrategistas e vencedoras. Não que não chorem, não sintam dor, muito ao contrário; é que deixam para dividir sua fragilidade somente com aquelas que lhe são iguais, que são merecedoras da sua confiança, as poucas pessoas felizardas de sua cumplicidade e afeto. Quero ser uma dessas merecedoras.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Seres apaixonados

Escrevo para não perder os pensamentos, não me perder, não esquecer a emoção que vi em olhos que acreditam, que sonham, que têm utopia ainda. Nenhum a menos. Essa frase me marcou. Nos olhos daquela professorinha, na fala daqueles dois professores soube o que é encantamento, crença, lutar contra a corrente. Dia desses já havia ficado enlevada com um filme com esse mote, e agora acompanhando a fala dos professores, com satisfação vi que é real, existem pessoas assim.  No debate, restava claro todo o drama e sofrimento do ato de reprovar, não aprovar determinados alunos para avançar para a série seguinte. Em um dado momento, no auge da emoção a professora disse: "Tudo o que eu queria era a surpresa, eu dei uma chance, e ele não fez o básico?! Porquê? No fundo eu sabia, mas estava na expectativa da surpresa, da novidade, e não, Ele fez exatamente o que sempre fez, não estudou, não se interessou, não se esforçou." Isso de fato decepciona, dói. No filme como na vida real, o sofrimento decorre da mania dos que assim o são, de quererem a todo custo que o outro assimile a nossa crença, a nossa visão de mundo. Somos pessoas que extrapolam, não cabemos em nós mesmos, tudo transborda, somos apaixonados pelo que fazemos e como todo ser apaixonado, temos dificuldade de enxergar o que difere de nós.  Quando deixamos de ser a gente e passamos a ser o outro? Penso que tudo é uma questão de perspectiva, é necessário um certo distanciamento para enxergar o que está nas entrelinhas, colocar as questões na mesa e permitir-se a Si e ao outro fazer escolhas. É verdade que não podemos consertar o mundo, aliás há quem possa? Quem disse que ele precisa ser consertado? O que, quem é normal? É verdade também, que para vivermos  coletivamente, há alguns códigos a serem decifrados, e alguns não conseguem, ou não querem, desvendar os enigmas, e que temos as vezes uma ínfima participação na vida de alguém, pois a vida de uma pessoa não se resume a um período, a uma fase; às vezes é preciso desenrolar lá para o início, voltar no tempo,  para um despertar de consciência. Como isso não é possível, ainda que cause dor, dizer não, reprovar a atitude de alguém, fazer com que o mesmo não avance; pode ser que permita à criatura "reprovada" e  ao círculo que a envolve, a revisão de alguns atos e atitudes, pode ser que não, pois afinal tudo é uma questão de escolhas, como já dito. Pense comigo, são oportunidades e isso é profundamente libertador. A luta dos sonhadores, utópicos, é não se deixarem desanimar, desacreditar, adoecer;  e por isso avançam mais e mais, apostam, arriscam, no vício da experimentação da descoberta; pessoas assim, embora para elas sejam profundamente desgastante pois estarão sempre na vanguarda, serão também sempre esteio e solidão, são sopro e ventania, pessoas assim, movem o mundo.





domingo, 10 de dezembro de 2017

Confiança

Existem frases/palavras que quando ditas dizem muito da pessoa, as condicionam, as imobilizam, não lhes permitindo serem quem são. Permita-me tentar ser um pouco mais clara: Uma pessoa em certa ocasião me contou que desenvolveu  um projeto para participar em um concurso, porém para implantá-lo era necessário a participação de seu amigo, devido às habilidades deste, pois juntos sem dúvida formariam uma bela dupla. Este ao ser convidado disse: "Não posso, lá só tem gente boa, feras". Ele retrucou: "Você está dizendo que é ruim? Se estou te convidando é porque te acho bom para o projeto... vamos lá! Podemos até não ganhar, mas podemos fazer acontecer."  Demonstrou, explicou os pormenores do projeto, ou seja, não faltaram argumentos para elevar a autoestima do amigo. Diante da negativa  acabou que desistiu daquele projeto, pois como disse não havia como fazer sozinho. Mais tarde, o amigo lamentou o fato de não ter acreditado em si, de ter desistido sem tentar, porque dentre o resultado dos que participaram, o deles tinha chances reais de dar certo. Tarde demais o momento havia passado. Então quando um amigo diz que você é bom, não duvide.

Arrumando gavetas

Ontem quase morri, hoje estou a arrumar gavetas. Para quê tantas coisas? Se tivesse ido, tudo ficaria, nada dessas coisas teriam importância. Hum pode ser que isso sirva a alguém, separo. Vou costurar essa peça rasgada, trocar o elástico desta, ajustar essa. Hum ainda dá pra usar. Ah mas tenho tantas, depois você nunca gostou de nada descosturado, roto, puído, manchado, desbotado. Verdade. Pensando bem, já deu, melhor descartar. Assim sigo a arrumar gavetas, com satisfação.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Cena cotidiana

O Natal se aproxima, vamos ficando mais sensíveis (Sério?), bem digamos que sim. Um mendigo chamava a atenção de transeuntes na rua, deitado na calçada de vez em quando se mexia de um lado pro outro, corpulento, a sujeira impressionava. Ao mesmo tempo que pensava, ouvia: "Esse aí pra limpar só com lava jato". Será que não tem família? pensei alto e uma pessoa responde: "Dona, quando chega nesse estágio,  a família não tá nem aí, é capaz de passar perto e fingir  que não conhece." Penso: "Será isso possível? Não, mesmo distante alguém pode estar com o coração aflito, pensando onde estará meu filho? Meu pai? Meu marido? Meu irmão?" Continuo instigando e a pessoa diz: "Dona, esse não tem mais jeito, chegou no fim, não tem recuperação, não há o que fazer." De novo penso: "Será?" Outro fala: "Antigamente, havia uma atividade das Prefeituras onde funcionários passavam pelas ruas recolhendo essas pessoas e levavam para um abrigo para cuidar, havia alguma assistência, a gente não via gente assim não". Verdade? Que aconteceu? "É a roubalheira Dona, o dinheiro vale mais que tudo, gente é investimento, gasto, dá trabalho e as pessoas andam intolerantes, sem tempo. A Senhora não vê? As pessoas preferem cuidar de um animal do que de gente?! " (Não desmerecendo os animais, veja o contexto da situação); outra pessoa do meu lado diz: " Pelos traços dele, deve ser um migrante, essas pessoas que vêm para as grandes cidades para trabalhar, chega não encontra nada, se vê sozinho, sem dinheiro e acaba na sarjeta sem condições de voltar." ... "pois é, o que não seria dar abrigo, banho, uma cama limpa pra dormir, sopa quente, o cuidado das feridas, dos pés rachados..." outro diz: "Ãh vai saber o que o levou a ficar assim.? " (Lembrei de uma mãe e sua angústia; com uma sacola de roupas, comida e outras coisas, procurava pelo filho no centro do Rio. Eu estava lanchando em uma praça e Ela sentada a meu lado me disse que vez ou outra procurava pelo filho por ali e sofria por não conseguir compreender o porque dele ter optado em viver nas ruas, sabendo que tem família, uma casa limpa e quentinha). Conjecturas.  A cena é peculiar porque se dá em uma avenida com lojas variadas, há um fluxo grande de pessoas e as que observam a cena e conversam entre si estão paradas no ponto de ônibus. Ao lado do homem caído há ambulantes com suas mesinhas, o vendedor de chocolates garoto, o carrinho de churros, na calçada há também, duas mulheres vendedoras que disputam a atenção, andam de um lado a outro; enfeitadas e no saltinho conseguem manter uma bolsa pendurada com apetrechos diversos no ombro e uma vasilha plástica em um  braço, e demonstram o que o incrível cortador de legumes faz, cortando couve fininha, a cenoura, a beterraba e o que mais se queira cortar no preparo de refeição.Vez ou outra alguém para, olha e compra o produto. Resisti. Em um dado momento o mendigo se levanta, pega um toco de cigarro no chão, revolve a lixeira, atravessa a pista do nada, caminha entre os carros e não é atropelado. Um velhinho com dificuldade, de muletas salta de um ônibus; que degrau alto meu Deus, fico aflita, um jovem aparece para ajudar. O velhinho também, devagar e com suas muletas caminha e de repente atravessa a pista e pasmem não é atropelado. Penso: é, a proteção divina proteje os mendigos, os desvalidos. Ainda agora penso, o que nos impede de dar acolhida, proteção a alguém? Nesse contexto, a impressão que fiquei é que as pessoas observam sim, algumas até se incomodam e gostariam de ajudar, fazer algo; mas tratam mais é de cuidar de si, cada um cuidando de sua sobrevivência e de sua família pois do contrário, quem haverá de cuidar? Quiça voltemonos uns para os outros, a se ajudar, se apoiar, pois juntos somos fortes. Não queira ser uma ovelha desgarrada pois ficará abandonada à própria sorte.