Que audácia a minha, escrever e disponibilizar algo que pode interessar só a mim, enfim...
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quarta-feira, 9 de maio de 2018
Pressão social
Estaciono meu carro, ele está lá, ando pela calçada ele, eles, ela estão lá, de várias formas e diferentes estaturas, envergaduras, em sua maioria pobres, negros. Alguns carregam os seus poucos pertences, seus cobertores, seu colchão ou um pedaço de papelão, alguns mal dá para ver os olhos opacos, a pele perdeu o viço, os cabelos o brilho, a cor. Quem? Os indigentes, quem estende sua mão tímida, quem a gente evita olhar, mas que não oferecem risco algum. Evitamos (uso esse termo porque tenho certeza que não só a mim incomoda, mas a você também que me lê) porque no fundo nos causa desconforto, porque sabemos que não é justo que não tenham o mínimo de dignidade para viver. Ele, Ela não fez por merecer? Ou fez por merecer? Não creio. Não é uma questão de mérito, é tudo menos isso e tanto Eu como Você sabemos disso, esse é um termo que temos usado para justificar o que é visto como sucesso do que adquirimos/conseguimos alcançar na sociedade catpitalista que vivemos. São diversos fatores sócio, político, econômico e cultural que faz com que pessoas acabem nas ruas, pedintes, indigentes; substantivo terrível esse, ser desprovido de recursos todos, paupérrimo, à margem da sociedade, e que nos envergonha porque sua presença mostra o fracasso social e econômico do país. Algo vai acontecer porque o número é crescente, estão chegando famílias inteiras, alguns se refugiam em condomínios, entre as grades que os separam das calçadas, veem-nos pela janela dos automóveis, dos apartamentos, prisioneiros do próprio medo. Mas não vai ter jeito não, o empobrecimento da população, a continuar como está, chegará a um ponto em que todos terão que sair às ruas e enfrentar a questão; abrir as janelas de oportunidades, de acesso aos chamados privilégios, demonstrar algo um tanto esquecido chamado solidariedade, compaixão. A necessidade fará vencer as barreiras do preconceito, da indiferença. Que bom seria não chegasse a esse ponto, pois ocorre muita dor e sofrimento, porém acaba sendo um prognóstico.
sábado, 28 de abril de 2018
Acompanhantes na sala de espera do centro cirúrgico
O ambiente é limpo, asséptico, clean, poltronas confortáveis, TV ligada o tempo todo para distrair, uma confortável sala de estar, pessoas ali estão, alguns minutos mais observa-se que as máquinas de água e café são visitadas vez ou outra e seus líquidos absorvidos em goles compassados, mãos entrelaçadas, às vezes um abraço, um afago, silencio inicial, então aos poucos os olhos dão sinais de angústia, as mãos se massageiam, ficar sentado já não satisfaz, é necessário levantar, andar de um lado a outro, as respirações são mais profundas, onde está a janela? É preciso tomar um ar. A senhora com ar sofisticado, de maquiagem bem feita e roupa impecável puxa uma conversa inicial com outra enaltecendo os atributos da família bem sucedida profissionalmente, dos médicos e engenheiros formados, dos amigos com cargos importantes, do tempo que morou no exterior; balela quer mesmo é entabular uma conversa, minutos depois fala de sua solidão, do filho que está lá dentro há horas, extraindo pedras dos rins, queixa-se que ela fala, fala mas que não adianta, que Ele não houve os conselhos, que se alimenta de forma e em horário errado, que deveria prestar atenção pois tem histórico familiar, que deveria se cuidar porque a avó morreu fazendo diálise, e Ela teme pois está vendo que do jeito que vai, Ele terá o mesmo destino, a outra por sua vez confidencia que o marido está há horas também sendo operado, que graças a Deus descobriu precocemente um câncer de próstata e que Ele procurou aquele hospital porque tem equipamento de robótica cujo cirurgião que o opera tentará extrair somente a próstata e assim não comprometerá sua capacidade de ereção, sua maior preocupação, mas que isso para Ela não importa, o que importa é que ele vai ficar curado fazendo companhia a Ela e aos filhos; uma mãe chega sentada à maçã, abraçada a seu filho, uma criança de três anos, canta-lhe uma canção de ninar antes de entregá-lo às mãos dos enfermeiros, seu corpo magro parece que só tem olhos, olhos de angústia, as pessoas evitam até olhar, tomados pela emoção; outra mulher cuja irmã está na emergência entre a vida e a morte, com um sorriso sem graça inicia a conversa com outra falando da sandália em seus pés que é parecida com a sua e em seguida fala da situação da irmã, a angústia é aparente, fala que a mesma é gorda que só, que vive avisando-a para se cuidar e nada e pronto ó, como Ela vai ficar se Ela se for? A pessoa que ouve aproveita a deixa e também fala da angústia de ter sua filha sendo operada no centro cirúrgico, uma jovem, para um problema precoce, mas que também já teve esse problema, assim como suas tias, que pelo jeito é uma tendência familiar. Os homens que ali estão, no seu silêncio parecem mais sensatos, frios, centrados, um não aguenta vai dar uma volta e na volta vez em quando pergunta: nada ainda? E o olhar em negativa informa, ah o olhar esse diz tudo, toda a fragilidade exposta, todo o medo da perda, todos iguais. Aos poucos um e outro médico/médica aparece para conversar, os ouvidos atentos, os pacientes, pacientemente vão saindo, no presenciado, todos vivos, alívio nos olhos antes aflitos, para seu alento e convívio, isso é o que importa, os detalhes resolve-se depois. Dia seguinte lá estão as acompanhantes tomando café juntas, se abraçando, se agradecendo pelas palavras de conforto, o desconforto passou.
sábado, 2 de dezembro de 2017
Cena cotidiana
O Natal se aproxima, vamos ficando mais sensíveis (Sério?), bem digamos que sim. Um mendigo chamava a atenção de transeuntes na rua, deitado na calçada de vez em quando se mexia de um lado pro outro, corpulento, a sujeira impressionava. Ao mesmo tempo que pensava, ouvia: "Esse aí pra limpar só com lava jato". Será que não tem família? pensei alto e uma pessoa responde: "Dona, quando chega nesse estágio, a família não tá nem aí, é capaz de passar perto e fingir que não conhece." Penso: "Será isso possível? Não, mesmo distante alguém pode estar com o coração aflito, pensando onde estará meu filho? Meu pai? Meu marido? Meu irmão?" Continuo instigando e a pessoa diz: "Dona, esse não tem mais jeito, chegou no fim, não tem recuperação, não há o que fazer." De novo penso: "Será?" Outro fala: "Antigamente, havia uma atividade das Prefeituras onde funcionários passavam pelas ruas recolhendo essas pessoas e levavam para um abrigo para cuidar, havia alguma assistência, a gente não via gente assim não". Verdade? Que aconteceu? "É a roubalheira Dona, o dinheiro vale mais que tudo, gente é investimento, gasto, dá trabalho e as pessoas andam intolerantes, sem tempo. A Senhora não vê? As pessoas preferem cuidar de um animal do que de gente?! " (Não desmerecendo os animais, veja o contexto da situação); outra pessoa do meu lado diz: " Pelos traços dele, deve ser um migrante, essas pessoas que vêm para as grandes cidades para trabalhar, chega não encontra nada, se vê sozinho, sem dinheiro e acaba na sarjeta sem condições de voltar." ... "pois é, o que não seria dar abrigo, banho, uma cama limpa pra dormir, sopa quente, o cuidado das feridas, dos pés rachados..." outro diz: "Ãh vai saber o que o levou a ficar assim.? " (Lembrei de uma mãe e sua angústia; com uma sacola de roupas, comida e outras coisas, procurava pelo filho no centro do Rio. Eu estava lanchando em uma praça e Ela sentada a meu lado me disse que vez ou outra procurava pelo filho por ali e sofria por não conseguir compreender o porque dele ter optado em viver nas ruas, sabendo que tem família, uma casa limpa e quentinha). Conjecturas. A cena é peculiar porque se dá em uma avenida com lojas variadas, há um fluxo grande de pessoas e as que observam a cena e conversam entre si estão paradas no ponto de ônibus. Ao lado do homem caído há ambulantes com suas mesinhas, o vendedor de chocolates garoto, o carrinho de churros, na calçada há também, duas mulheres vendedoras que disputam a atenção, andam de um lado a outro; enfeitadas e no saltinho conseguem manter uma bolsa pendurada com apetrechos diversos no ombro e uma vasilha plástica em um braço, e demonstram o que o incrível cortador de legumes faz, cortando couve fininha, a cenoura, a beterraba e o que mais se queira cortar no preparo de refeição.Vez ou outra alguém para, olha e compra o produto. Resisti. Em um dado momento o mendigo se levanta, pega um toco de cigarro no chão, revolve a lixeira, atravessa a pista do nada, caminha entre os carros e não é atropelado. Um velhinho com dificuldade, de muletas salta de um ônibus; que degrau alto meu Deus, fico aflita, um jovem aparece para ajudar. O velhinho também, devagar e com suas muletas caminha e de repente atravessa a pista e pasmem não é atropelado. Penso: é, a proteção divina proteje os mendigos, os desvalidos. Ainda agora penso, o que nos impede de dar acolhida, proteção a alguém? Nesse contexto, a impressão que fiquei é que as pessoas observam sim, algumas até se incomodam e gostariam de ajudar, fazer algo; mas tratam mais é de cuidar de si, cada um cuidando de sua sobrevivência e de sua família pois do contrário, quem haverá de cuidar? Quiça voltemonos uns para os outros, a se ajudar, se apoiar, pois juntos somos fortes. Não queira ser uma ovelha desgarrada pois ficará abandonada à própria sorte.
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Sobre o momento atual
Como já disse minha mãe, "tem coisas que acontecem só em quem está vivo", então, não pense que o que acontece em sua vida é privilégio somente seu, ou que a desgraça é só sua. Viva simplesmente. Se as coisas estão boas agradeça; se não estão, agradeça também, difícil sei desenvolver essa capacidade de resiliência mas nós humanos temos essa capacidade incrível basta ver a história de cada um que aqui ainda está. O que é difícil entender nesse momento de travessia, é a apatia generalizada, o desalento tal que imobiliza; quero acreditar que o momento é de reflexão, as vezes nosso espírito quer ficar quieto, isolado, sozinho. Muitos à sua maneira estão pensando estratégias de mobilização, estão se fortalecendo em seu núcleo familiar, com seus amigos próximos; buscando alternativas de sobrevivência e o mais importante refletindo. Alguns, normalmente os mais mais privilegiados estão abandonando o barco, deixando os até então parceiros à deriva. Para esses meu desprezo. Já pensou se em todas as dificuldades desistimos? Se Ficarmos mudando de lugar, de companhia? Dificilmente essa pessoa se encontrará, ou deixará um legado para alguém, sim porque sempre há como deixar algo de proveitoso para o próximo, para a humanidade, é algo muito maior que você, é extra vida, talvez você nem chegue a usufruir, mas se você é presente, de alguma forma sua presença será sentida, agradeçamos também aos nossos antepassados, que tanto fizeram por nós, o que nos permite estar aqui. Andando agora a pouco pelo centro do Rio, pisando nas pedras, observando os prédios antigos, fiquei pensando nos desbravadores dessas terras, especialmente nos escravos, que muitos feitos, e quantas histórias nos deixou, algumas para contar ainda que eles mal sabiam mas que estão nos detalhes, para os bons observadores.
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terça-feira, 2 de maio de 2017
Em algum lugar do passado
A memória visita algum lugar do passado; após já ter trabalhado de forma informal em troca de alguns trocados, a jovem sonha com seu primeiro emprego e impelida pela necessidade vislumbra uma possibilidade e se submete a testes em uma grande confecção de roupas masculinas e consegue admissão. A vontade de vencer e a força da juventude, faziam com que abraçasse todos os desafios e ignorasse o cansaço, a marmita fria que era cheirada antes de comer, a dor do dedo perfurado pela máquina de costura industrial, da humilhação quando não havia feito uma costura perfeita, cuja peça não era descartada mas era descontada do salário, da meta de produção que nunca era alcançada, da supervisora que não tinha chicote mas que sua presença circulante, seu olhar e fala sibilante, sempre procurando diminuir a auto estima das empregadas, eram intimidadoras para uma jovem de quinze anos, que segundo a ideia corrente precisava de disciplina, obediência cega para aprender como se trabalha e naturalmente se submetia porque o salário complementava a renda da família.
Mais tarde no segundo emprego do mesmo seguimento e cenário, a irmã se junta nessa experiência, eram (sempre foram) funcionárias exemplares, os corpos eram máquinas de vigor no movimento de máquinas, tesouras, linhas e peças de roupa; mas as tarefas nunca eram suficientes, as metas de produção inalcançáveis e ao final dos meses, a frustração ao conferirem os contracheques pois o adicional esperado não vinha.
Nos dias de hoje próximo a sua "aposentadoria" , a "surpresa" ao constatar que seu patrão do primeiro emprego não depositou o valor devido à previdência e terá que "correr atrás"; acostumada aliás.
A constatação dessa jovem ao final é que sobreviveu e venceu no mundo do trabalho, devido a proteção assegurada pela legislação trabalhista e daí a desconfiança, a preocupação em lutar para assegurar os direitos duramente conquistados com suor, lágrimas e sacrifícios dos trabalhadores e trabalhadoras que a antecederam. Se com proteção, essa não é nem de longe a pior história, haja vista os trabalhadores das fábricas em geral, dos empregados (as) domésticas, de carvoarias, mineradoras, os lavradores, dos "paus de arara" , a do meu Pai que de tanto trabalhar, seu corpo tremia de exaustão e por essas e outras veio a falecer aos 52 anos e outras; alguns(mas) não viveram nem pra contar sua história.
Finalizando, os trabalhadores(as) pobres, que "venceram" e ainda lutam com medo de perderem o pouco que conquistaram, trazem em si e família várias marcas de sacrifício e superação, e numa sociedade tão desigual, injusta e corrupta como a nossa, a vitória só acontece sobretudo além da proteção assegurada por legislação específica, por uma força interior muito grande, de se saber que não está só, que há um Deus que alimenta seu espírito. Por isso, agradeço.
Mais tarde no segundo emprego do mesmo seguimento e cenário, a irmã se junta nessa experiência, eram (sempre foram) funcionárias exemplares, os corpos eram máquinas de vigor no movimento de máquinas, tesouras, linhas e peças de roupa; mas as tarefas nunca eram suficientes, as metas de produção inalcançáveis e ao final dos meses, a frustração ao conferirem os contracheques pois o adicional esperado não vinha.
Nos dias de hoje próximo a sua "aposentadoria" , a "surpresa" ao constatar que seu patrão do primeiro emprego não depositou o valor devido à previdência e terá que "correr atrás"; acostumada aliás.
A constatação dessa jovem ao final é que sobreviveu e venceu no mundo do trabalho, devido a proteção assegurada pela legislação trabalhista e daí a desconfiança, a preocupação em lutar para assegurar os direitos duramente conquistados com suor, lágrimas e sacrifícios dos trabalhadores e trabalhadoras que a antecederam. Se com proteção, essa não é nem de longe a pior história, haja vista os trabalhadores das fábricas em geral, dos empregados (as) domésticas, de carvoarias, mineradoras, os lavradores, dos "paus de arara" , a do meu Pai que de tanto trabalhar, seu corpo tremia de exaustão e por essas e outras veio a falecer aos 52 anos e outras; alguns(mas) não viveram nem pra contar sua história.
Finalizando, os trabalhadores(as) pobres, que "venceram" e ainda lutam com medo de perderem o pouco que conquistaram, trazem em si e família várias marcas de sacrifício e superação, e numa sociedade tão desigual, injusta e corrupta como a nossa, a vitória só acontece sobretudo além da proteção assegurada por legislação específica, por uma força interior muito grande, de se saber que não está só, que há um Deus que alimenta seu espírito. Por isso, agradeço.
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